sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Sou apenas diferente



Eu não me contento com pouco.
Sou muito crítica comigo e com os outros.
Não preciso aceitar tudo e todos,
Mas não abro mão do respeito.
Tenho minhas próprias opiniões.
Embora a vida seja curta e tudo isso passageiro,
Não me permito viver na mediocridade.
Quero ouvir a melhor música, ler os melhores livros,
Comer e beber o que há de melhor.
Não quero amores vis nem amigos quaisquer.
Não me dou pra todo mundo,
Mas a todos trato com respeito e gentileza.
Viver é uma arte e passar pela vida é um privilégio.
Por que desperdiçar com subultura e coisas superficiais e triviais?
Posso não ser melhor que ninguém, mas certamente não sou pior.

Sou apenas diferente!

MENINA DO COLAR DE CONTAS COLORIDAS

Eu penso que a paixão é uma ave de rapina sempre pronta para atacar impiedosamente o primeiro ser vivo a passar na sua frente. Pois bem, foi exatamente assim que aconteceu comigo. Me apaixonei por descuido. Sem perceber, fiquei bem na mira dessa ave.

Vou contar como tudo aconteceu...

Em uma noite quente, às margens da Baía do Guajará, eu estava bebericando com os amigos quando conheci uma menina de sorriso largo, olhinhos apertados e cabelos arrepiados.

Eu a avistei de longe. Foi paixão à primeira vista. Ela veio à minha mesa para cumprimentar uma amiga que estava tomando uma bebida comigo. Minha amiga a convidou para sentar-se conosco. Ela estava acompanhada de um sujeito alto, magro, cabelos lisos e óculos de lentes grossas, de aparência completamente desinteressante.

Lembro de ter trocado algumas palavras com o sujeito, que falava de museus, do passado ou algo do gênero. Embora o lugar estivesse repleto de gente, e o tal sujeito falasse copiosamente, minha atenção estava voltada exclusivamente para a menina, que sorria e gesticulava.

Ao final da noite, em meio às despedidas, abracei a menina, que surpreendentemente me disse ao pé-do-ouvido:

_ “Não vamos perder contato!”.

Olhei com espanto para ela e beijei-a no rosto. Fui para casa com aquela frase dando voltas na minha cabeça como uma mariposa na lâmpada.

Na manhã seguinte, acordei com uma vontade enorme de encontrar a menina. Mas como? Ela não havia deixado nenhum contato. Nada. Virei minha cabeça para baixo, derrubei meus pensamentos sobre a cama, vasculhei minha memória e cheguei a minha amiga, que era conhecida da menina.

Assim como quem toma um copo de conhaque de um gole só, tomei coragem e liguei para a amiga, que me disse como encontrar a menina.

Fiquei horas olhando para o telefone. Os músculos da minha mão estavam tensos e tinham dificuldade de responder ao meu comando. Depois de alguns minutos, disquei o número e deixei completar a ligação. Eis que ouvi a voz da menina, que docemente repetia:

_ Alô! Alô!

O silêncio tomou conta da ligação. Eu estava em estado de choque. Era ela. A menina atendera ao telefone.

Depois de me apresentar, conversamos por pouco tempo. Ela me disse que não gostava de falar ao telefone, porque preferia conversar pessoalmente, olhando nos olhos, o que, de fato, é muito mais interessante.

Antes de desligarmos, a menina me convidou para passarmos o domingo em uma ilha de Belém. Confesso que respondi sem pensar. Passamos um dia maravilhoso. Comemos peixe, bebemos vinho e tomamos café no final da tarde.

Ah, os cafés de fim de tarde...

Daquele domingo em diante, foram muitos cafés de fim de tarde até chegar a noite em que nos amamos sem parar. Depois de assistirmos um maravilhoso filme europeu, fomos para a sala e nos beijamos ali mesmo, no seu sofá vermelho. Do sofá fomos para a cama, da cama para a parede, da parede para a cama, da cama para cozinha, da cozinha para a sala, e assim nos amamos por quase vinte e quatro horas ininterruptas.

Antes de eu ir embora, decidimos viver um dia de cada vez... E vivemos!

Entre tantos momentos inesquecíveis, como passeios na Praça da República, filmes no cinema Olímpia e no Líbero Luxardo e café na livraria Nobel, me lembro, em especial, do dia em que a menina colocou um lindo colar de contas coloridas. Esse colar tornou-se o símbolo da nossa paixão.

Uma paixão vivida entre as cores e a poesia... Sim, havia muita poesia entre nós. Todos os dias, nós acordávamos com poesia. Trocávamos torpedos com versos e haikais, autorais ou não, e sempre mandávamos beijos com sabor de algo ou com uma qualidade. Lembro de ela ter adorado o dia que enviei um torpedo em que eu finalizava escrevendo “um beijo de spotlight”.

Havia muita delicadeza...

O tempo passou. A vida e as nossas escolhas nos afastaram. Há algum tempo que não vejo a menina. Não sei se ainda usa o colar de contas coloridas. Se os cabelos continuam arrepiados e se mantém o gosto por calças surradas e rasgadas. Enfim, não sei mais nada sobre ela. Mas nada disso importa porque, para mim, ela sempre será a menina do colar de contas coloridas.

Haikai de Ano Novo

"Ano vai
Tempo esvai
Sonhos vêm
Pra quem tem".

domingo, 7 de novembro de 2010

Atenção: não leiam Monteiro Lobato!

Em meio aos absurdos que assistimos cotidianamente neste país, recentemente um me chamou atenção: a leitura de célebres autores da literatura brasileira, como Monteiro Lobato, é considerada motivadora do preconceito e da discriminação racial. Não sou eu quem diz isso, é o Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão do Ministério da Educação, ao tentar proibir a distribuição do livro "Caçadas de Pedrinho" por julgar seu conteúdo racista.

É sabido de todos que a educação brasileira vai mal, muito mal. Infelizmente a escola tem sido palco de quase tudo, de assédio sexual a ponto de venda de drogas, menos de educação e instrução. Em geral, os professores são mal remunerados e as condições de trabalho são péssimas. Para não cometer injustiça, entendo e reconheço que há espaços de excelência e destaque, que infelizmente são a exceção. Os jovens saem da escola e ingressam no ensino superior sem saber ler e escrever razoavelmente. E sabe o que é pior? Muitos concluem o ensino superior quase do mesmo jeito que entraram. Sabe por quê esses jovem leem e escrevem mal? Porque não leram Machado de Assis, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, entre outros grandes nomes da literatura.

Concordo com a Academia Brasileira de Letras que se manifestou veemente contra a posição do CNE e ainda sugeriu que em vez de proibir as crianças de saber a vergonhosa realidade histórica do país, seria muito melhor que os responsáveis pela educação estimulassem uma leitura crítica por parte dos alunos. Para tal, temos que investir em professores melhor qualificados e em escolas preparadas para formar indivíduos autonomos e críticos de verdade. Mas me parece claro que esse não é o objetivo. Afinal, esses individuos são ameaça constante ao modelo político hegemonico porque podem se tornar CIDADÃOS.

sábado, 6 de novembro de 2010

Poesia 6

Sou a delicadeza

Da seda leve,

Da brisa suave

Das manhãs de outono.



Mas se me aborreço,

Logo passo

Ao extremo oposto.



Percebo a ira

Subir pelas minhas pernas

Alcançar as minhas mãos

E sair pela boca.



O mundo fica do avesso

A vida de ponta-cabeça

Solto labaredas

Reluzentes e mortais

Por todos os meus poros.



Até que alguem me abrande,

Já destrui meio mundo

Estilhaçei copos e janelas

Desestabilizei os pólos.

Haikai 5

A ave solta
Baila leve
Envolta sente
Que a vida ferve.

Poesia 5

Eu tenho mais fases que a lua.

Oscilo entre os pólos.

Revejo meus conceitos.

Rasgo meus planos.

Traio meus ritos.

Sigo em frente.

Volto atrás.

Xingo, berro.

Danço, rezo.

Páro, faço.

Poesia 4

Há algum tempo

Habita em mim

Uma velha senhora

Triste e ranzinza

Com xale rosa



Surgiu da tristeza

Do amor mal-amado

Do casamento falido

Da promessa não cumprida

Do sonho cortado.



A velha senhora

Substituiu a moça

Que tinha esperanças

Que saltitava entre as flores

Sonhava amores.



A moça morreu

Numa manhã de outono

De tristeza e dor

Do completo abandono

Do amor.



No lugar da moça formosa

Sobrou a velha ranzinza

Que anda pelas sombras

Rogando pragas

Às moças bem-amadas

Haikai 4

Chuva de idéia,

Colheita de tempestade.

terça-feira, 16 de março de 2010

Poesia 3

Insistência


Da palavra se fez a alegria.
Da alegria se fez o riso.
Do riso se fez a luz.
Da luz se fez o dia.
Do dia se fez o tempo.

O tempo que insiste em passar...

Do tempo se fez a espera.
Da espera se fez a angústia.
Da angústia se fez o assombro.
Do assombro se fez a penumbra.
Da penumbra se fez a noite.

A noite que insiste em queimar...

Da noite se fez a festa.
Da festa se fez a cantoria.
Da cantoria se fez o pranto.
Do pranto se fez o choro.
Do choro se fez o homem.

O homem que insiste em ser...
Do homem se fez a palavra.
E da palavra se fizeram todas as outras coisas.

As coisas que insistem em existir...

Música 2

Minha alegria


O amor consumiu minha alegria
Só deixou a melancolia
Entristeceu o meu viver.

Minha vida era a boemia
Dia e noite, noite e dia
Eu vivia sem você.

Agora só restou a nostalgia
No meu peito, essa agonia
E as lembranças a reviver.

Não sorrio como eu sorria
Eu perdi a cantoria
Minha vida é sofrer.

Vivo a espera de um dia
Ver voltar minha alegria
Que habita em você.

Música 1

Encruzilhada



Vamos ver onde é que vai...
Onde vai dar esta estrada.
Vamos ver onde é que vai...
Se vai dar na encruzilhada.


Venha ver o meu amor
Ó minha linda namorada
Todo amor é sofredor
Mesmo em noite enluarada.


Vamos ver onde é que vai...
Onde vai dar esta estrada
Vamos ver onde é que vai...
Se vai dar na encruzilhada.


Já nasceu o novo dia
O caminho é perigoso
Também cheio de alegria
Nesse teu olhar formoso.


Vamos ver onde é que vai...
Onde vai dar esta estrada
Vamos ver onde é que vai...
Se vai dar na encruzilhada.


Veja a ginga do mulato
O teu olhar logo se assanha
Com o sorriso do gaiato
Deixa que ele te ganha.

Saudade do Marahu


"Eu que vivo de mar em mar, pescando pra sobreviver. Digo a quem quiser me escutar, que não tenho mais saúde nem disposição para passar tantos dias sem ninguém em alto-mar.


Quero uma cama quente, comida na mesa e olhos saudosos e cheios de carinho do meu bem. Naveguei por muitos mares, tantos rios, pesquei de tudo. Peixes de todos os tamanhos e cores, de gosto bom e ruim também.

Umas vezes pesquei somente com anzol e linha, outras com redes de arraste, com tramas de todos os tamanhos e tipos.

Houve dias em que não pesquei um peixinho sequer. Mas vivi outros em que foram tantos peixes que mal pude carregar e saborear, devolvendo o excedente para o mar.

De alguns não guardo nenhuma lembrança, de outros lembro de cada escama, cada detalhe, do sabor, da cor e do olhar. Sim, do olhar do peixe porque cada peixe tem o seu olhar, um olhar próprio que só pescador sabe decifrar".

Haikai 3

Noite quente
Cama fria
Vaga mente

Haikai 2

É primavera em mim
e as flores bailam ao vento.
Será meu pensamento?

Haikai 1

Estrelas do mar
Dançam no céu
Em noite de luar

Poesia 2

Amar


Amo no vão

entre o dia e a noite,

nas horas que mudam,

no tempo que fecha,

no mar agitado...

Exatamente nas circunstâncias

mais improváveis de se conjugar

o verbo amar.

Poesia 1

Metrônomo

Passo

Com o passo
Compasso
Vejo e refaço
O espaço

Estilaço
A lâmina do aço
Desfaço
Em pedaço
O laço