Eu penso que a paixão é uma ave de rapina sempre pronta para atacar impiedosamente o primeiro ser vivo a passar na sua frente. Pois bem, foi exatamente assim que aconteceu comigo. Me apaixonei por descuido. Sem perceber, fiquei bem na mira dessa ave.
Vou contar como tudo aconteceu...
Em uma noite quente, às margens da Baía do Guajará, eu estava bebericando com os amigos quando conheci uma menina de sorriso largo, olhinhos apertados e cabelos arrepiados.
Eu a avistei de longe. Foi paixão à primeira vista. Ela veio à minha mesa para cumprimentar uma amiga que estava tomando uma bebida comigo. Minha amiga a convidou para sentar-se conosco. Ela estava acompanhada de um sujeito alto, magro, cabelos lisos e óculos de lentes grossas, de aparência completamente desinteressante.
Lembro de ter trocado algumas palavras com o sujeito, que falava de museus, do passado ou algo do gênero. Embora o lugar estivesse repleto de gente, e o tal sujeito falasse copiosamente, minha atenção estava voltada exclusivamente para a menina, que sorria e gesticulava.
Ao final da noite, em meio às despedidas, abracei a menina, que surpreendentemente me disse ao pé-do-ouvido:
_ “Não vamos perder contato!”.
Olhei com espanto para ela e beijei-a no rosto. Fui para casa com aquela frase dando voltas na minha cabeça como uma mariposa na lâmpada.
Na manhã seguinte, acordei com uma vontade enorme de encontrar a menina. Mas como? Ela não havia deixado nenhum contato. Nada. Virei minha cabeça para baixo, derrubei meus pensamentos sobre a cama, vasculhei minha memória e cheguei a minha amiga, que era conhecida da menina.
Assim como quem toma um copo de conhaque de um gole só, tomei coragem e liguei para a amiga, que me disse como encontrar a menina.
Fiquei horas olhando para o telefone. Os músculos da minha mão estavam tensos e tinham dificuldade de responder ao meu comando. Depois de alguns minutos, disquei o número e deixei completar a ligação. Eis que ouvi a voz da menina, que docemente repetia:
_ Alô! Alô!
O silêncio tomou conta da ligação. Eu estava em estado de choque. Era ela. A menina atendera ao telefone.
Depois de me apresentar, conversamos por pouco tempo. Ela me disse que não gostava de falar ao telefone, porque preferia conversar pessoalmente, olhando nos olhos, o que, de fato, é muito mais interessante.
Antes de desligarmos, a menina me convidou para passarmos o domingo em uma ilha de Belém. Confesso que respondi sem pensar. Passamos um dia maravilhoso. Comemos peixe, bebemos vinho e tomamos café no final da tarde.
Ah, os cafés de fim de tarde...
Daquele domingo em diante, foram muitos cafés de fim de tarde até chegar a noite em que nos amamos sem parar. Depois de assistirmos um maravilhoso filme europeu, fomos para a sala e nos beijamos ali mesmo, no seu sofá vermelho. Do sofá fomos para a cama, da cama para a parede, da parede para a cama, da cama para cozinha, da cozinha para a sala, e assim nos amamos por quase vinte e quatro horas ininterruptas.
Antes de eu ir embora, decidimos viver um dia de cada vez... E vivemos!
Entre tantos momentos inesquecíveis, como passeios na Praça da República, filmes no cinema Olímpia e no Líbero Luxardo e café na livraria Nobel, me lembro, em especial, do dia em que a menina colocou um lindo colar de contas coloridas. Esse colar tornou-se o símbolo da nossa paixão.
Uma paixão vivida entre as cores e a poesia... Sim, havia muita poesia entre nós. Todos os dias, nós acordávamos com poesia. Trocávamos torpedos com versos e haikais, autorais ou não, e sempre mandávamos beijos com sabor de algo ou com uma qualidade. Lembro de ela ter adorado o dia que enviei um torpedo em que eu finalizava escrevendo “um beijo de spotlight”.
Havia muita delicadeza...
O tempo passou. A vida e as nossas escolhas nos afastaram. Há algum tempo que não vejo a menina. Não sei se ainda usa o colar de contas coloridas. Se os cabelos continuam arrepiados e se mantém o gosto por calças surradas e rasgadas. Enfim, não sei mais nada sobre ela. Mas nada disso importa porque, para mim, ela sempre será a menina do colar de contas coloridas.